sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sexta-feira Quente: Aziz Santos

Poder, política, dinheiro, governo Jackson Lago, eleições 2014, Operação Navalha e psicologia, são alguns dos assuntos que o economista e psicólogo Abdelaziz Aboud Santos, conhecido mais como Aziz Santos, trata na entrevista exclusiva à coluna Sexta-feira Quente, do Blog do Robert Lobato.
Um dos personagens mais controversos e polêmicos da política maranhense, Aziz Santos foi “homem forte” do governo Jackson Lago e quase sempre é considerado responsável por  tudo que houve de bom e de ruim naqueles tempos.
Na entrevista, Aziz não poupa críticas ao grupo Sarney e afirma que mesmo se Jackson Lago contasse com ampla aprovação popular seria cassado, pois a cassação do governador trabalhista era uma conspiração do ex-presidente Lula, do senador José Sarney e do Suprema Tribunal Federal, principalmente na pessoa do ex-ministro Eros Graus.
Sobre eleições 2014, o ex-secretário defende a “unidade’ da oposição em torno do comunista Flávio Dino pelo mesmo ter credenciados-e a liderar o “combate contra a oligarquia”.
Já em relação ao candidato Luis Fernando, Aziz admite se tratar de “amigo e um homem de bem”.
A seguir a íntegra da entrevista.

“Tinha o poder de um secretário que gerenciava as finanças públicas. Tomar conta do Tesouro Estadual é cargo melindroso. Defender as finanças que são públicas geralmente contraria poderosos interesses de pessoas e organizações”.

AZIZ SANTOS POR ELE MESMO

Um arariense, neto de árabes que chegaram em Arari no início do século XX. Ali recebi uma formação humanista, da família e da sociedade, onde os mais velhos eram pais e mães de todas as crianças da rua, e o respeito e a solidariedade entre as pessoas eram os valores mais presentes. Hoje, pai de 5 filhos e 6 netos.
A JUVENTUDE
Estudante do Colégio São Luís, depois do Liceu, e participante de uma geração que muito cedo voltou sua atenção para as questões educacionais e culturais de sua terra natal, atuando em movimentos estudantis que logo, logo se enraizou pela via política. Estagiei voluntariamente no Movimento de Educação de Base – MEB e distribuía com o saudoso colega economista Arlindo Raposo o Jornal Brasil Urgente, da esquerda católica brasileira, que lutava pelas Reformas de Base, fechado em 64 pela Ditadura Militar. Vivi as agruras do golpe de 64, tendo sido detido no 24º Batalhão de Caçadores sob investigação por atividades consideradas pelos golpistas como subversivas à ordem pública.
RELAÇÃO COMUNIDADE ÁRABE
Minha relação é bastante próxima com as numerosas famílias de árabes que decidiram morar em Arari. Era como se todos fossemos parentes. Bom relacionamento com a comunidade que viveu e vive em São Luís. São famílias carinhosas que nos abraçam como filhos. É uma marca extraordinária de sua personalidade, essa de nos fazerem sentir pertencentes à sua comunidade.
CARREIRA DE BANCÁRIO
Sou bancário concursado do Banco da Amazônia, iniciei a carreira bancária em Porto Velho, Rondônia, aí pelos idos de 1965. A safra de borracha que nos exigia muitas horas extras de trabalho logo me fez chefe de setor. Voltei para São Luís e tive uma ascensão funcional rápida. Aos 27 anos fui Gerente da Agência de São Luís, de onde saí para exercer a Presidência do antigo Banco de Desenvolvimento do Maranhão.
O EXERCÍCIO DA PSICOLOGIA
Estou atendo clientes como psicólogo. As Constelações Familiares têm me ajudado bastante como instrumento auxiliar que é da Psicologia. Completo minha clínica com acupuntura, especialidade na qual me formei há alguns anos.
A BUSCA DO “EU REAL”
Penso que esse é o caminho de todos nós, a nossa missão nesta vida: buscar a nossa essência última, o Deus que mora dentro de nós. Creio que somos seres espirituais num corpo físico, temporário, que se desfaz pela morte física, o que não faz desaparecer a consciência que a tudo permeia no Universo.

“Sou rico de saúde, graças a Deus. Trabalho. Ganho o suficiente para sustentar a minha família”

PODER NO GOVERNO JACKSON LAGO
Tinha o poder de um secretário que gerenciava as finanças públicas, como no tempo da prefeitura. Tomar conta do Tesouro Estadual é cargo melindroso. Defender as finanças que são públicas geralmente contraria poderosos interesses de pessoas e organizações, principalmente as que querem beneficiar-se indevidamente delas. Precisa de pulso firme. O meu trânsito com o Dr. Jackson Lago não dependeu dos cargos que exerci sob seu comando, mas da estreita amizade com que me honrou em quase 30 anos de convivência diária. Guardo muitas confidências desse período, vivenciamos juntos maus e bons momentos. Continuo com muitas saudades dele.
ERROS NA GREVE DOS PROFESSORES E POLICIAIS
Não são as pessoas que nos fizeram e fazem oposição que dizem que errei naquela momento crítica, mas o chamado “fogo amigo”, basicamente os covardes que tinham medo de criticar o Dr. Jackson enquanto vivo, como têm agora por respeito forçado à sua memória. Jamais tomei uma decisão no governo que não tivesse a chancela e a autorização do ex-governador. Foi sempre assim, por isso a confiança que ele em mim depositava. Vivemos o presidencialismo. Quando dizem que alguns erros do governo eram fruto de divergências entre secretários, esquecem-se de dizer, por matreirice, que acima dos secretários, que são apenas auxiliares, existia o Governador.
AVALIAÇÃO POPULAR DO GOVERNO JACKSON E CASSAÇÃO
Mesmo com uma alta aprovação popular não evitaria a cassação do governador. Essa é outra distorção do pensamento medíocre e pusilânime de alguns. Todos sabemos que foi uma decisão de gabinete tramada por Sarney e Lula, com a cumplicidade do TSE, em especial do ex-ministro Eros Grau e do então presidente Ayres Brito. Golpe de estado pela via judiciária, como afirmou o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Dr. Francisco Rezek, advogado de defesa do Jackson. O que poderia fazer a população do Maranhão ante um conluio dessa monta envolvendo os Três Poderes da República? Precisaria de organização social, do que mesmo o Brasil carece.
REALIZAÇÕES NA SEPLAN
Planejamos o desenvolvimento do Maranhão, que há 30 anos não se fazia. O ponto alto foi a regionalização e os 32 Planos Populares de Desenvolvimento elaborados com o concurso das populações locais. A ideia era transformar as antigas regiões administrativas em territórios de desenvolvimento. Assim se pensava a descentralização (o governo mais próximo da população).
Iniciamos a implantação da Regionalização em 3 (três) regiões que, através dos Conselhos Populares de Desenvolvimento decidiriam a execução dos seus orçamentos. Sim, o Maranhão foi o primeiro estado brasileiro a implantar o orçamento regionalizado. Isso só foi possível pela vontade política do Governador Jackson Lago. Outro ponto de destaque foi o programa de Cooperação Internacional com convênios de cooperação técnica e comercial já celebrados ou em fase de negociação com Cuba (área da saúde), Venezuela (relações comerciais), França (bacias hidrográficas) e China (siderurgia). Significava a abertura do Maranhão para o mundo.
Acrescento o Projeto de Águas Perenes que tinha o objetivo de redimir a Baixada Maranhense, com barragem e diques para conter a salinização dos campos e transformá-los em viveiros naturais para a criação de peixes, projeto com recursos orçamentários assegurados e parte deles já depositado no Consórcio de Municípios da Baixada.
Não me arrendo de nada que fizemos ou que deixamos de fazer. O dia vivido me basta.
O GOVERNO JACKSON E OS NOVOS RICOS
Não conheço nenhum novo rico do nosso Governo. Os que denunciam deveriam citar os nomes e comprovar. É o mínimo que se espera de pessoas sérias, decentes e corajosas. Fora disso são apenas caluniadores.
RIQUEZA
Sou rico de saúde, graças a Deus. Trabalho há 50 anos no exercício de cargos de destaque no Estado. Ganho o suficiente para sustentar a minha família. Penso que continuarei trabalhando por muitos anos ainda para dar conta de minhas responsabilidades familiares.
LEGADO DE JACKSON LADO NO SEGURANÇA/SISTEMA PRISIONAL
O governo Jackson tinha uma política de segurança pública. Criou a primeira Secretaria de Segurança Cidadã do Brasil com o compromisso de implantar no Estado o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), com foco na prevenção, no controle e na repressão qualificada da violência.
Pela via do concurso público contratou 1.000 novos policiais, enquanto em 172 anos de história o efetivo da Polícia Militar era de 6.706 policiais. Na Polícia Civil, investiu num contingente de 500 novos policiais, entre agentes, escrivães, peritos e médicos legistas. Admitiu 100 novos policiais no Corpo de Bombeiros e iniciou a interiorização da Corporação em Balsas e Caxias
Através do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), ofereceu cursos de capacitação e aperfeiçoamento a centenas de policiais militares e civis, além de casas próprias para policiais, bolsas-formação e a implantação do Plano de Cargos, Carreira e Remuneração dos agentes do sistema penitenciário. No sistema penitenciário, foram abertas 500 vagas.
O governo iniciava a construção de novas unidades prisionais em Imperatriz, Bacabal e Pinheiro; implantou o Centro de Inteligência da Secretaria de Segurança Cidadã e, mais importante, a criação dos Conselhos de Segurança Cidadã, um esforço liderado pela Dra. Eurídice Vidigal e Pe. Victor Asselin de fazer a população engajar-se na luta pelos direitos humanos. Ainda conseguimos implantar 22 Conselhos em São Luís e começávamos a implantá-los no interior do Estado
NADA DE POSITIVO NO GOVERNO ROSEANA
Não consigo ver de positivo no atual governo. Você consegue? Cadê o planejamento? Ninguém sabe, ninguém viu.
Deixamos um planejamento centrado nas aspirações populares, com metas de curto, médio e longo prazo. Ao tempo em que se cuidava da grande economia, desenvolvemos em parceria com o Sebrae e o Banco do Brasil um programa de APL’s (Arranjos Produtivos Locais) para gerar riquezas junto aos pequenos produtores com o apoio do Fundo Maranhense de Combate à Pobreza (FUMACOP). Onde está tudo isso?

“É cedo para avaliar o desempenho do atual prefeito. Jackson, quando prefeito, somente no 2º ano conseguia mostrar os resultados de seu esforço”.

A CANDIDATURA FLÁVIO DINO
O Flávio Dino é o resultado de um processo que se iniciou há muitas décadas, pontilhado por nomes que se opuseram e combateram as oligarquias (de Victorino e de Sarney). Credenciou-se a liderar o combate contra a oligarquia e a disputar o governo do Estado como o candidato de unidade das oposições.
O SENADOR DE FLÁVIO DINO
Creio que estamos num período de montagem da melhor chapa para conduzir a vitória das oposições nas eleições deste ano. Para o Senado, existem várias postulações, assim como para outros cargos majoritários (vice-governador, suplentes de senador). Quem sairá candidato a vice-governador, senador e suplentes de senador vai depender das negociações entre os partidos que comporão a aliança em torno de Flávio Dino e acredito que isso tenha de se submeter ao critério mais geral, mais amplo que é dar mais possibilidade de vitória ao candidato ao governo. Do meu ponto de vista pessoal, gostaria que tivéssemos para o Senado um nome diferente desses que se falam por aí.
O VICE
O que vou dizer é um lugar comum: candidato a vice tem que ser um nome de composição. Melhor se tiver voto, mas o que precisa mesmo é facilitar a eleição complementando características que faça a chapa ficar mais relevante. No caso específico da eleição deste ano, acredito ser importante um candidato a vice-governador que simbolize o acervo político eleitoral de Jackson Lago. Isso fortaleceria a candidatura do PCdoB.
PARTICIPAÇÃO NA COORDENAÇÃO DE CAMPANHA
Penso que o Flávio tem nomes excelentes para a coordenação de sua campanha. Sou um militante político com raízes na melhor história do PDT de Brizola, Jackson e Neiva que aprendeu a lutar independentemente de posições.

“A Operação Navalha foi uma armação criminosa do grupo Sarney de cunho inteiramente político. Conseguiram o que queriam nas manchetes dos grandes jornais.”

LUIS FERNANDO
É meu amigo e um homem de bem. Pena que represente o establishment.
CANDIDATURA DO PDT
Como eu comentei anteriormente, a luta anti-oligárquica é um processo de muitas décadas no Maranhão. Jackson Lago, que fundou e dirigiu o PDT no Maranhão por mais de duas décadas, conduziu o bastão dessa luta por muitos anos. Com sua morte, o bastão não ficou no PDT. Se tivéssemos um sistema “normal” no Maranhão e não esta situação esdrúxula em que existem apenas dois campos, o PDT teria razões de lançar um candidato a governador. No quadro atual, o que precisamos fazer é unir forças em torno de um candidato comum que simbolize o conjunto das oposições.
AVALIAÇÃO GESTÃO EDIVALDO JÚNIOR
É cedo para avaliar o desempenho do atual prefeito. Jackson, quando prefeito, somente no 2º ano conseguia mostrar os resultados de seu esforço.. É hora de torcer e de oferecer ajuda. O Sistema Mirante de Comunicação não perdoa. Bate todo dia. É difícil administrar sob o fogo cerrado da mídia poderosa dos adversários. Querem defenestrar o Flávio através do Edivaldo Junior.
A OPERAÇÃO NAVALHA
Como se sabia, a Operação Navalha foi uma armação criminosa do grupo Sarney de cunho inteiramente político. Conseguiram o que queriam nas manchetes dos grandes jornais e, depois disso, de terem atingido seus objetivos e de tentar macular a vida dos adversários, nunca mais trataram da denúncia. O Jackson morreu sem ter podido se defender. Oxalá eu tenha mais sorte.
PROJETO PARA 2014
Meu projeto para 2014 é, claro, o de ajudar humildemente a que as oposições maranhenses ganhem a batalha eleitoral que se avizinha.
MENSAGEM AOS LEITORES
Em primeiro lugar, gostaria de lhe agradecer por me abrir espaço em seu blog. Tenho, também, a esperança de ter contribuído para o debate democrático de opiniões, produto que anda tão escasso em nosso Estado. Por último, quero externar minha convicção de que, apesar do massacre midiático a que somos submetidos no Maranhão, a ação corajosa de jornalistas, radialistas e blogueiros que militam diariamente nos meios de comunicação e na internet estão ajudando a transformar o Maranhão. Estamos deixando de ter um “pensamento único”, o que se reflete não somente nas grandes cidades como nos municípios mais distantes.

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