domingo, 7 de fevereiro de 2016

Circuitos do ‘Carnaval de Todos’ reverenciam grandes nomes da cultura maranhense

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“Haja Deus quanta beleza!”. Este verso de um samba enredo que marcou história no carnaval maranhense, apresentado na década de 1970 pela escola Flor do Samba, resume em poucas palavras a inestimável contribuição deixada a cultura e ao carnaval do Maranhão pelas 19 pessoas, cujos nomes batizam os espaços onde será realizado o ‘Carnaval de Todos’, promovido pelo governo do Estado e a prefeitura de São Luís.

A programação da maior festa popular do país, que será realizada até o dia 9 de fevereiro, está distribuída em quatro circuitos, doze palcos e três tendas na programação definida para a capital maranhense. Em cada um dos espaços, o governo do Estado presta uma justa homenagem àqueles que deixaram seu nome gravado na história do carnaval maranhense.

O circuito 1 batizado com o nome de ‘Seu Roseno’, reverencia a memória de Roseno Cruz Amaral um dos mais importantes integrantes do Fuzileiros da Fuzarca, agremiação carnavalescas das mais tradicionais do estado e que em 2016 comemora 80 anos de existência. Este circuito, que contem cinco palcos e uma tenda de tambor de crioula, começa na Vila Gracinha e termina no Largo do Caroçudo, passando pela Praça da Saudade e pelo canto do Cemitério do Gavião.
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O circuito 2 batizado com o nome de ‘Antero Viana’, homenageia Antero Viana, uma das referências da cultura maranhense. Ele foi o fundador do Boi de Monte Castelo e também participou da fundação da escola de Samba Império Serrano. O circuito 2 inicia na Rua São Pantaleão, passando pelo Largo Santiago e indo até o Ceprama e conta com três palcos.

O circuito 3, com o nome Dona Teté, se estende da RFFSA ao Laborarte, contemplando dois palcos, sendo que um deles é dedicado exclusivamente para programação infantil. Este circuito homenageia Almerice da Silva Santos, a Dona Teté, um dos ícones da cultura maranhense.

Nascida em São Luís em 1924, ela foi aprendiz de Mestre Lauro, criador do Cacuriá, dança que teve origem nos festejos do Divino. Na década de 1980, ingressou no Laborarte para dar aulas de caixa. Posteriormente, fundou seu próprio grupo de Cacuriá e deu uma contribuição importante para difusão deste ritmo no Maranhão. O estilo mais sensual das coreografias tornou-se uma das marcas do Cacuriá de Dona Teté, que ganhou reconhecimento internacional.

O circuito 4, que homenagea Chico Coimbra, tem largada na Casa do Maranhão e encerra na Praça Nauro Machado, passando pela Rua Portugal. Incluindo dois palcos e duas tendas de Tambor de Crioula, o Circuito da Praia Grande é batizado com o nome do estilista e carnavalesco maranhense que conquistou títulos pelas escolas de samba Unidos de Fátima, Flor do Samba e Favela do Samba. Ele atuou também junto a diversos blocos tradicionais.

Além dos circuitos, os palcos onde se apresentarão diversas atrações, todas elas maranhenses, também reverenciam a memória de quem não pode ser esquecido pela história de vida dedicada a construir o carnaval maranhense.

O palco da Vila Gracinha recebeu o nome de Walmir Moraes, fundador do bloco tradicional ‘Os Foliões’, que este ano completa quatro décadas de existência. Referência neste tipo de manifestação cultural genuinamente maranhense, na data de nascimento de Walmir Moraes, 8 de maio, é comemorado o Dia Municipal do Bloco Tradicional.

O palco da Praça da Saudade homenageia o cantor e compositor José Henrique Pinheiro Silva, conhecido popularmente como ‘Escrete’, ele é autor de canções clássicas como ‘Gaiola’ (Bandeira da Liberdade) e ‘Sereia’, que são cantadas com frequência principalmente pelos blocos afros.

O palco do Canto do Gavião reverencia o legado de Henrique Maritiniano Reis, popularmente conhecido como ‘Sapo’, cantor e compositor da velha guarda da Madre Deus, que fez parte dos Fuzileiros da Fuzarca, da Escola de Samba Turma do Quinto e do Boi da Madre Deus.

O palco do Ponto de Fuga foi batizado com o nome de Valdinar, em homenagem a um dos grandes nomes do cenário cultural de São Luís, Valdinar Araújo Reis, fundador do grupo musical Sindicato de Valdinar, um dos mais importantes grupos de pagode do estado.

O palco do Largo Santiago recebe o nome de Dona Celeste e homenageia Maria Celeste Santos. Durante várias décadas responsável pela organização da Festa do Divino na Casa das Minas. Ela deixou uma legado importante para a cultura e a religiosidade negra no Maranhão.

A Casa das Minas é o mais antigo terreiro de Mina de São Luís fundado no século XIX por escravos africanos vindos do Reino de Daomé .
O carnavalesco, o sambista e o folião.

A diversidade da cultura maranhense também se reflete na diferentes maneiras em que cada um dos homenageados nos espaços destinados a festa de Momo no ‘Carnaval de Todos’ deixou seu legado para a maior festa popular do país. O Palco Ceprama homenageia Joãosinho Trinta. Este maranhense foi um dos mais importantes carnavalescos do país, ganhador de títulos por diversas escolas de samba do Rio de Janeiro, principalmente a Beija Flor, pela qual fez uma revolução nos desfiles de carnaval.

O Palco da Praça Nauro Machado é batizado com o nome de palco ‘Bibi Silva’ em homenagem a um dos grandes nomes da música maranhense, pai do cantor e compositor César Teixeira. O Palco da Praça dos Catraieiros recebe o nome de Palco ‘Zé Pequeno’, reverenciado a memória de José de Ribamar Bógea, fundador do Jornal Pequeno e um dos maiores entusiastas do Carnaval, tendo inclusive criado uma coluna no jornal do qual era dono dedicada exclusivamente à folia de Momo.

O palco da Casa do Maranhão é batizado com nome de Magno Cruz, militante do movimento negro e um dos fundadores do CCN (Centro de Cultura Negra do Maranhão) entidade onde foi organizado o mais antigo bloco afro do estado, o Akomambu. O palco do Canto da Cultura recebe o nome de ‘Michol Carvalho’ em reconhecimento ao trabalho de Maria Michol Carvalho, pesquisadora que atuou como responsável pelo Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) dos Blocos Tradicionais.

Os dois palcos situados no circuito ‘Dona Teté’: o Palco Infantil ‘Wagner Alhadef’ e o Palco Adulto ‘Nelson Brito’ prestam homenagens a nomes que fazem parte da história do Laboratório de Expressões Artísticas do Maranhão (Laborate) e também deixaram um legado importante para o carnaval maranhense. Wagner Alhadef foi um artista plástico que atuou durante quase dez anos no Laborarte e teve reconhecimento nacional e internacional. Já o teatrólogo, ator e produtor cultural Nelson Brito foi um dos fundadores do Laborarte, além de ter ocupado os cargos de diretor do Teatro Arthur Azevedo e presidente da Fundação Municipal de Cultural de São Luís.

Saudade, orgulho e tradição

As três tendas de tambor de crioula montadas no ‘Carnaval de Todos’ reverenciam dois mestres desta manifestação cultural tipicamente maranhense, Mestre Leonardo e Mestre Felipe, além de uma das figuras mais carismáticas da Praia Grande: a saudosa dona ‘Faustina’, cujo nome já batiza a praça onde se apresentam diversos grupos de tambor de crioula.

O nome de Mestre Leonardo foi dado à Tenda na Casa do Maranhão como homenagem a este maranhense que se tornou referência na história do Tambor de Crioula. Já o nome de Mestre Felipe, que contribui de forma decisiva para que o tambor de crioula ultrapasse as fronteiras do estado e ganhasse reconhecimento nacional e internacional, foi dado à Tenda da Madre Deus.

A Tenda ‘Faustina’ homenageia Faustina Matilde Pereira, figura muito popular no Centro Histórico de São Luís. Ela era dona de um bar que se tornou referência no local e hoje batiza uma praça onde abatazeiros e coreiras costumam se reunir para as animadas e irresistíveis rodas de Tambor de Crioula, que ecoam pelas ruas do Centro Histórico e dão o tom de singularidade do carnaval maranhense.

Para quem conviveu com algumas das pessoas homenageadas nos palcos, tendas e circuitos do ‘Carnaval de Todos’, o reconhecimento é bem vindo, principalmente para que as novas gerações saibam um pouco da história de quem tanto fez pela cultura do Maranhão.

“Notei que desde o São João do ano passado, o governo do Estado vem promovendo este tipo de homenagem às pessoas que já se foram, mas deixaram um trabalho importante e que precisa ser lembrado sempre”, comenta a cantora Rosa Reis. Ela foi casada com Nelson Brito e também e faz parte do Cacuriá de Dona Teté e atualmente é coordenadora do Laborarte, onde mestre Felipe ministrou aulas de percussão.
Conceição Cabral, filha do mestre ‘Sapo’, outro homenageado, diz que é motivo de orgulho ter o nome do pai que marcou história na Madre Deus, lembrado para batizar um dos palcos do circuito do carnaval maranhense.

Gutemberg Bógea, filho de Ribamar Bógea, herdou do pai a paixão pela folia. Organizador da ‘Bicicleta do Samba’, uma das atrações que agita o pré-carnaval maranhense, ele lembra que o pai sempre manteve o jornal de portas abertas para todas as agremiações carnavalescas.

Para quem foi familiar ou amigo destas pessoas, falar do legado que elas deixaram, embora reforce ainda mais a saudade, que conforme narra uma música de Josias Sobrinho “é traça e estraçalha coração”, também dá um orgulho especial, pois esta homenagem é o justo reconhecimento a quem já garantiu eternamente um lugar cativo no enredo do carnaval maranhense e na memória cultural do estado.

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